segunda-feira, setembro 10, 2012

O suicídio coletivo de um departamento

Zero candidatos ao curso de Engenharia Têxtil. Já aqui fiz a previsão para este cenário e a sua análise. A direção do departamento de Engenharia Têxtil ao longo das últimas décadas, não fez nada para evitar esta situação. Fundou-se o curso de Engenharia de Materiais e a engenharia têxtil ficou de fora. O resultado é que quem investiga materiais no Centro de Ciência e Tecnologia de Materiais há anos, já deixou o departamento para outros departamentos onde se investiga e ensina sobre materiais, e outros eventualmente se seguirão, se o departamento entretanto não for dissolvido. Já aqui foi referido como os responsáveis pelo DET num passado recente, entregaram o curso de química de materiais têxteis ao departamento de química. O resultado é que os "químicos" do departamento não têm aulas suficientes com os cursos existentes no DET, Mestrados principalmente. Criou-se a ilusão que o Design seria o futuro. Neste curso o que se ensina de têxtil podia-se ensinar na escola secundária: é a introdução às tecnologias, matéria descritiva que até se pode aprender sem ir ás aulas. As outras componentes são lecionadas por professores que são eles próprios novos à àrea e inexperientes. Essa é a minha perceção, embora eu próprio tenha dificuldade em avaliar matéria tão pouco científica e sujeita a interpretações várias. Estes professores, não quer dizer no entanto que sejam novos em idade, uma vez que não tendo havido renovação de quadros desde há quase duas décadas, estão quase todos na casa dos quarenta, o que dificulta qualquer outra nova “adaptação”, como esta que foi feita ao Design. Neste curso há alunos. Não são no entanto alunos de engenharia, e este curso já não é exclusivo da têxtil, havendo um outro curso de design que arrancou este ano, o curso de Design do Produto…na Escola de Arquitetura. A "têxtil" nem sequer foi ouvida, ou mais uma vez, não se fez ouvida. Como é que os professores da "têxtil" deixaram chegar a isto? Muito simplesmente: é a falta de coragem dos seus docentes, nomeadamente os antigos assistentes, agora professores auxiliares, que mantiveram no poder, leia-se á frente do DET, professores sem capacidade nem iniciativa para mudarem esta situação de declínio lento e inevitável. Diz-se que os Países têm os governos que merecem, que até pode ser o caso deste governo eleito numa euforia anti-Sócrates. Pois talvez também os professores têm os departamentos que merecem...

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Prof. Jaime Gomes,

Em conversas com várias pessoas sempre manifestei que é estratégico para o país e para a UM a manutenção deste departamento e de um curso de engenharia nesta área, não o de design!
Eu compararia o binómio Designer/Eng Têxtil com um outro, o Arquiteto/Eng. Civil. São áreas distintas, com sobreposições, mas um foco diferente. Parece-me que um curso de design têxtil no DET - ah esqueci-me de dizer que sou um leigo nesta matéria - até faz sentido se formar pessoas que conheçam profundamente os processo de fabrico, os materiais e tudo à volta. No entanto, segundo o que diz não é que acontece, o que é muito grave e certamente leva a por em causa a necessidade deste departamento.

Para mim - sublinho mais uma vez, leigo - trágico mesmo é não haver um curso de Eng. Têxtil. Perdendo o país competitividade por via dos salários, poderia manter alguma indústria através da mão de obra especializada que entretanto formou, desde costureiras até aos técnicos superiores. Neste contexto seria fundamental a existência de um departamento de têxtil e um curso de eng., certamente não nos números de antigamente mas para salvaguardar o interesse nacional. É claro que poderia até entrar no design, se calhar em colaboração com uma escola de Belas Artes, e certamente deveria entrar (já entrou espero eu) no têxteis especializados como aquele que ouvi que repele o mosquito da malária. Mas para isso era necessário não alienar d química têxtil e a tecnologia de materiais, duas áreas que me parecem fundamentais para o domínio têxtil.

É claro que retrospetivamente é fácil perceber o percurso e os erros, mas, como foi possível chegarem até aqui? Não conheço as dinâmicas de grupo no departamento de têxtil, mas o Sr. sendo um homem que pensa os assuntos, como demonstra neste artigo, e sendo para além disso catedrático, teria nas mãos certamente a capacidade de influenciar, ou pelo menos alertar veementemente, para os riscos que se corriam e o buraco em que se estavam a meter. Perdoe-me a veleidade mas acho que "culpar" os "antigos assistentes" é o mais fácil, mas provavelmente injusto, e eventualmente alijando responsabilidades próprias. Mas a "culpa" não acaba aqui! Onde está o sentido estratégico da Escola e da Reitoria? Já não falo no sentido estratégico do estado, mas, por exemplo caberia à Reitoria sensibilizar os poderes governamentais para a necessidade da manutenção no país desta área do conhecimento. É claro que num país ideal seriam os próprios governantes a definirem o setor como "cluster", e para isso, garantirem a existência desta área de conhecimento.

Fica aqui meu contributo,

É Melhor Manter-me Anónimo.